Compromisso de Honra

Aprovado em 2008 em reunião do Conselho Geral da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas Portuguesas, o “Código de Ética”, compromisso de honra, um dos momento altos dos capítulos, onde se obriga na sua entronização a respeitar normas enquanto membro, a confraria enquanto instituição defensora de valores humanistas, fraternidade, lealdade, herança cultural, mas também os produtos da terra, as receitas antigas, a destreza técnica, as tradições e memórias de um legado patrimonial de valor incomensurável.

Nas últimas décadas nasceram em Portugal dezenas de confrarias fundadas em pilares identitários dos produtos da terra, de ingredientes e receitas genuínas, nas tradições e hábitos locais com objetivo maior pela defesa, preservação e manutenção do seu património.

As confrarias, por razões e emoções, devem ser verdadeiras guardiãs de memórias e tradições, da cultura gastronómica, resistentes às invasões de hábitos alimentares estranhos, à sua adulteração e à degradação silenciosa a que todos assistimos, impiedosamente.

Hoje, por juízos, as confrarias não fazem trabalho de casa na formação dos seus membros, divulgam mal os seus produtos, ignoram a riqueza do seu território. As confrarias perderam o seu verdadeiro e intransigente papel na defesa daquilo pelas quais foram fundadas.

Como entender a ementa de um capítulo ou outro evento gastronómico que não seja promovida a receita ou produtos identitários pelos quais fizeram nascer a Confraria?

Não se entende que num evento promovido por uma Confraria não haja intervenção sobre a história do prato, muitas vezes mal confecionado, sem que ninguém se prenuncie.

A ausência de capacidade crítica nestes eventos torna-nos cúmplices da confeção incorreta, em contraponto com o juramento de compromisso de honra. Porque será que os jovens não aderem ao que andamos a fazer?

Percorrer o país em romaria, pendurar o pin da lapela da celebração de mais um capítulo, exibir belas fotos, ostentar os trajes, sem ter a preocupação de conhecer a história e o receituário local, sem apreciar e saber o que se põe no prato é verdadeiro, ou falso, muitas vezes acompanhado com garrafas de Seven Up ou Coca Cola, é muito mau exemplo.

A Confraria Terras de Vimaranes foi fundada por razões justificadas que nos transmitem preocupações justas às quais há necessidade de encontrar soluções. É um projeto plural, de coesão territorial, inclusivo, onde cabem todos quantos defendem a autenticidade dos produtos e receitas, os registos de memórias e tradições, dos lugares e das pessoas tendo sempre presente que estes são a nossa maior riqueza.

Ao fim de cinco meses de vida realizamos o primeiro ato eleitoral. Nos seus corpos gerentes estão três presidentes de junta. São membros da Confraria 12 presidentes de junta que representam 17 freguesias do nosso território. É nesta base de proximidade e de ligação umbilical à terra que assentam os pilares do nosso trabalho; registos de memória, realização de concursos gastronómicos, premiar o melhor e os melhores, reunir os órgãos sociais com regularidade, distribuir pequenas tarefas, incluir os jovens; promover os produtos da terra em quintas em harmonização com o receituário local, a alquimia da cozinha no prato.

No fim de semana de 31 de maio e 2 de junho de 2024, vamos realizar o “I Vinhos Vimaranes”, um encontro com produtores, com o propósito de divulgar e promover os vinhos da região, num verdadeiro serviço cívico com pulsar afonsino, dedicada à comunidade. No âmbito deste evento, vamos realizar o nosso segundo Capítulo.

Portugal tem um património alimentar inestimável, a natureza, o mar, os rios, os produtos da terra, os vinhos, os doces conventuais, a gastronomia, a hotelaria, a restauração, fazem do nosso território um lugar mágico. Há uma necessidade imperiosa da união de todos quantos amam este património. Unir o movimento confrádico à mesa em torno de objetivos concretos de formação e valorização com as mulheres, os jovens e todos os que se interessem verdadeiramente por aquilo que nos une; a gastronomia, património imaterial da humanidade, como importante pilar de desenvolvimento económico e social e na afirmação e identidade de um povo secular.

Mário Moreira, Cozinheiro

Presidente da Direção da Confraria Terras de Vimaranes