A evolução da gastronomia e o papel das confrarias

Recordo o surgimento da Confraria das Tripas à Moda do Porto, que celebra no mês de junho 23 anos! Nascida da vontade de várias figuras, entre as quais destaco algumas que já não estão entre nós, como o seu primeiro presidente, Paulo Valada, que num almoço na ANJE, apoiado por Emídio Peres, pai da nutrição em Portugal, a fez acontecer. E isto em contraponto ao que os tempos profetizavam como o fim das Tripas à Moda do Porto, depois de instalada a confusão da doença das vacas loucas no ano de 1998. Deram-lhe ânimo, também, o saudoso Daniel Serrão, Manuel Serrão, Souza-Cardoso, e, claro, o apoio da Unisnhor, na pessoa de António Condé Pinto. Poderia esta confraria ter terminado pouco tempo depois da sua fundação, já que o seu primeiro líder não foi capaz de unir esforços para concretizar eventos que era urgente levar a cabo. Assim, reunimos no hotel Porto Palácio os vice-presidentes e, como num golpe de Estado, fizemos um ultimato ao primeiro presidente, que acabaria por se demitir. Seguiram-se-lhe o Senhor Pacheco, José Osório, Maria do Céu Pinto, eu próprio, Alberto Lemos e Manuel Moura. Diz-nos São Josemaria: “Nunca duvides dos pequenos inícios, um dia fizeram-me ver que as sementes que dão ervas anuais pouco diferem das que dão árvores centenárias”. Nunca duvidei! E esta confraria cresceu, mostrando que a nossa atitude, a nossa determinação e a nossa vontade cumpriam o objetivo a que nos tínhamos proposto: elevar o ex-libris da gastronomia portuense ao lugar que merecia. Passamos a fazer os nossos capítulos no local mais prestigiante da nossa cidade, o Palácio da Bolsa. Muito consideraram pretensioso, um local demasiado luxuoso. Eu sempre achei que devemos nivelar tudo por cima, e tive razão. Foi assim que conseguimos afirmar esta confraria como um símbolo não só da cidade, mas também da gastronomia nacional. Começamos por fazer os primeiros jantares das últimas quartas-feiras na Baixa do Porto, alertando para a desertificação e o abandono a que políticas erradas tinham levado, deixando o Centro Histórico à mercê de marginais. Valeu a pena! Foram muitos os políticos, líderes de opinião, agentes de mudança que se juntaram a nós como oradores; todos os candidatos à Câmara Municipal do Porto viram a importância desta confraria, e desde os primórdios marcaram presença nas suas campanhas, num gesto que hoje é uma tradição. A Confraria das Tripas à Moda do Porto foi, também, inovadora na ação e na resposta necessária para mudar a inércia com que a sociedade do Porto vivia, longe das pessoas, sem um contacto direto com todos e para todos. Fê-lo através de um vasto rol de oradores de todos os quadrantes políticos, de todos os setores da sociedade, mantendo-se aberta para escutar vozes diferentes quer no pensamento, quer na forma de estar na vida. Recordo com saudade as galas do Infante Dom Henrique, que deixaram de se fazer, mas foram tantas vezes uma chamada de atenção para que Câmara Municipal e Governo olhassem para instituições e pessoas que estavam esquecidas e que, depois de terem sido homenageadas por nós, o foram por entidades do Estado. Foram exemplos os Albergues Noturnos do Porto, a escultora Irene Vilar, o poeta Albano Martins, o bispo Dom Manuel Martins, Germano Silva, Helder Pacheco, Júlio Resende, Miguel Vieira, o maestro Manuel Ivo Cruz, Alcino Soutinho, Zulmiro de Carvalho… Um conjunto de ilustres tripeiros que esta Confraria homenageou, em cerimónias que devem orgulhar-nos pela forma tão elevada como foram organizadas. É, pois, para mim um enorme orgulho pertencer a esta Confraria e sentir que deixei uma marca nos dez anos em que, dia após dia, a vivi (ainda mais) intensamente. Como bem sabem, sempre com um só desejo: que as Tripas à Moda do Porto não fossem olhadas como um “mero” prato tradicional, e sim como a demonstração palpável do que é ser portuense, da nossa capacidade de nos darmos, de nos reerguemos, de nos recriarmos. Estes objetivos são, hoje, alguns dos que devem continuar a pautar esta confraria: a proximidade, a importância de manter a tradição, o não deixar esquecer esta receita… Mas hoje apresentam-se-lhe outros desafios que são urgentes. Um deles é a capacidade de chamarmos gente jovem; precisamos de dar um novo rumo à confraria, que passa pela valorização da própria receita, mas também por mostrar aos mais jovens que não pode haver futuro sem fortes raízes no passado. Hoje, é urgente falarmos de proximidade, do retorno à Terra, do respeito pelo meio ambiente, de nos afirmarmos como pessoas que estão atentas às transformações climáticas, capazes de olhar para a gastronomia e reconhecer que não podemos continuar nesta exortação a uma alimentação que não só desrespeita os princípios básicos da nutrição, mas também destrói o planeta. Compete às confrarias alertar para que deixem de se usar alimentos cuja pegada ecológica é enorme e irreversível – veja-se, por exemplo, a produção massiva de soja para alimentar um crescente número de vegetarianos, que tem um impacto brutal na natureza através da destruição de florestas. Importa promover uma baixa do consumo de carnes e peixes que fazem viagens de milhares de quilómetros, com todo o prejuízo que o gasto de combustível acarreta para o planeta. Urge desmentir a existência de “superalimentos” divulgada por influencers armados em nutricionistas ou por coachs de pacotilha; alimentos que, na verdade, são as novas bruxas e feiticeiros do século XXI, como a quinoa, o abacate, as bagas de goji, o óleo de coco, o açúcar de coco, entre tantos outros. Importa, isso sim, promover cada vez mais os produtos de proximidade, mostrando que a alimentação de hoje deve assentar nas mesmas premissas do passado: biodiversidade, sazonalidade e proximidade. Basta de enaltecer em capítulos gastos e cansativos o gosto estranho pelos tempos da fome, como os que assistimos em algumas confrarias, num saudosismo bizarro de “pobrezinhos, mas felizes”, gabando um passado que não deixa saudades. As confrarias devem estar ao lado da luta dos agricultores, que vivem momentos desesperantes pela imposição de uma Agenda Verde sem qualquer sentido, emanada por uma União

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Confraria Gastronómica do Alentejo lançou o livro “Comeres Raianos”

Parte das receitas gastronómicas típicas dos 13 concelhos raianos do Alentejo e também do ‘vizinho’ concelho de Olivença (Espanha) estão, agora, reunidas num livro bilingue lançado pela Confraria Gastronómica do Alentejo. A obra, intitulada “Comeres Raianos”, disponível em português e em castelhano, reúne cerca de 50 receitas e conta ‘estórias e histórias’ do património gastronómico da raia alentejana e daquele município da província de Badajoz, na Estremadura espanhola. No total, do lado português, estão representados sete concelhos do distrito de Portalegre (Nisa, Castelo de Vide, Marvão, Portalegre, Arronches, Campo Maior e Elvas), dois do de Évora (Alandroal e Mourão) e quatro do de Beja (Barrancos, Moura, Serpa e Mértola), que fazem fronteira com as regiões espanholas da Estremadura ou da Andaluzia. O livro “retrata cada um desses concelhos e contou com a colaboração das autarquias”, explicou José Casas Novas, provedor da Confraria Gastronómica do Alentejo. “Faz um pouco a história de cada um dos concelhos, fala sobre a história gastronómica e, daí, o fator de ‘estórias e histórias’ de algumas curiosidades gastronómicas e até antropológicas” da raia, acrescentou o mesmo responsável. A Confraria Gastronómica do Alentejo adicionou ao livro ‘os comeres’ de Olivença, devido à “relação profícua” deste município espanhol com o Alentejo e pelo facto de a Confraria Gastronómica de Olivença ser ‘afilhada’ da Confraria Gastronómica do Alentejo. A Confraria A Confraria Gastronómica do Alentejo (CGA) é uma associação que tem por objeto a investigação e divulgação do  Património Gastronómico Alentejano. No desenvolvimento da sua atividade propõe-se defender e divulgar a autenticidade da Gastronomia Alentejana, sem, no entanto, reprimir a sua evolução natural e adequada a processos tecnicamente tidos como corretos. Incentivar a investigação do Património Gastronómico Alentejano nos seus múltiplos aspetos, tais como, receituário, arte e técnica da cozinha tradicional, produtos utilizados, relacionada com a arte popular gastronómica, pesquisa das antigas casas de comida, cozinheiras e cozinheiros famosos, evolução dos pratos, e todos os outros que permitam fazer a reconstituição histórica da cozinha dos nossos antepassados e afirmar a sua razão de ser nos dias de hoje. Também deve a CGA promover a nível regional, nacional e internacional a gastronomia alentejana, através das formas para o efeito consideradas convenientes. Retificar e atualizar sempre que necessário a Carta Gastronómica do Alentejo e colaborar na publicação e atualização periódica de um roteiro da Gastronomia Alentejana. Promover e apoiar medidas tendentes à preservação e recuperação da fauna e da flora autóctones, nomeadamente das espécies piscícolas e cinegéticas, das ervas aromáticas e condimentos, assim como de todos os produtos tradicionais, com especial incidência no presunto e enchidos do porco Alentejano.

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Frango na Púcara

Parece uma receita simples e fácil, mas nem sempre é bem feita. Identificada como oriunda de Alcobaça, também se encontra na região alargada até Ourém onde também já a comi bem feita. E uma das razões para a confeção não me parecer aprimorada é o facto de, por vezes, ser confecionada a lume alto, quando deve ser em lume baixo e por mais tempo. Lá diz o ditado: “quem cozinha depressa come cru ou duro”. Não há muita história sobre o aparecimento desta receita. Consta, no entanto, que se deva ao Mosteiro de Alcobaça, onde seria inicialmente feita com perdiz. Esta mudança “estará, forçosamente, ligada ao carácter nobiliárquico que aquela pequena ave tinha, sendo considerada peça de caça destinada a estômagos economicamente privilegiados.”, assim se pode ler numa descrição no livro ‘A cultura gastronómica em Portugal’, volume I, editado pelo Centro de Formação Profissional do Sector Alimentar, em 1995. Parece-me que por vezes terá sido confecionada com galinha, senão vejamos o provérbio do século XVIII que dizia: “A velha Gallinha faz gorda a cozinha” *. Evitava-se cozinhar galinha enquanto esta dava ovos. Possivelmente a sobrevivência desta receita se deva ao facto de substituir a perdiz pelo frango e assim ficar mais acessível e popular. Felizmente! No livro ‘Receitas e Sabores dos Territórios Rurais’, editado por Minha Terra – Federação Portuguesa de Associações de Desenvolvimento Local, 2013, a versão é mais precisa: “… como as perdizes começaram a escassear, o cozinheiro António de Sousa, mais conhecido por chefe Bonzíssimo, do restaurante «Corações Unidos”, criou a receita de Frango na Púcara, adicionando-lhe os ingredientes necessários para que o seu sabor se aproximasse do sabor da Perdiz na Púcara”. A receita é um estufado, colocando todos os ingredientes em cru, na púcara, tapada, e vai ao lume por cerca de quarenta minutos. Quanto aos ingredientes, devemos contar com frango limpo e cortado em pedaços, presunto, toucinho entremeada fumado, tomate, cebolinhas, manteiga, alho, vinho do Porto, aguardente velha, louro, salsa, sal e pimenta, vinho branco e uvas passas. A primeira receita que encontrei é da autoria de Maria Odete Cortes Valente, em Cozinha Regional Portuguesa, Editorial, Organizações, Lda, Lisboa 1962. No mesmo ano foi publicado o livro ‘Cozinha do Mundo Português’, de M.A.M, na Livraria Tavares Martins, que também contém uma receita de Frango na Púcara. Há pequenas variantes em relação aos vinhos e também encontrei uma receita que acrescenta cogumelos. Em 1969 encontrei no livro ‘Coisas Boas – Receitas Culinárias’, quarta edição sendo que a primeira foi em 1960, mas não consegui saber se a receia já lá estaria incluída, editado pela Conferência do Imaculado Coração de Maria, em Lourenço Marques, três receitas de Frango na Púcara, todas cedidas por Maria do Céu Pereira da Silva, com ligeiras variantes, mas na essência são idênticas. Depois Maria de Lourdes Modesto, na Cozinha Tradicional Portuguesa, Verbo 1982, e Maria Emília Cancella de Abreu, em Tesouros da Cozinha Tradicional Portuguesa, Seleções do Reader’s Digest, 1984, que publica a receita do Café Águia d’Ouro, de Alcobaça, e acrescenta que acompanha com batatas fritas. No livro Culinária, de Olleboma, 1928, surgem duas receitas, sendo uma de Frango estufado à portuguesa sem tomate e outra de Frango estufado à portuguesa com tomate, que poderiam ser antecessoras da receita de Frango na Púcara. Na mesma obra existe uma receita de perdizes estufadas, que nos poderiam levam à tradição da Perdiz na Púcara, só que nesta receita usa vinho Madeira em vez de Porto. Eu habituei-me, sempre que vou a Alcobaça, a ir comer Frango na Púcara, como fiel consumidor, ao restaurante António Padeiro. E é por isso que esta crónica surge. Recentemente este restaurante foi o convidado no restaurante JNçQUOI Avenida e um dos pratos presentes foi o Frango na Púcara. O JNçQUOI já nos habituou a trazer ao seu espaço o melhor que há da cozinha regional portuguesa e servir os seus pratos. A propósito do JNçQUOI, apetece-me transcrever uma pergunta e responda da última entrevista que a saudosa Maria de Lourdes Modesto concedeu a Alexandra Prado Coelho paro o Público – Fugas: “Se tivesse um restaurante, como é que o imaginava? Eu estava a pensar fazer cozinha portuguesa. Não sei se teria o jeito e a competência do meu amigo, o chef António Bóia, que [no JNcQuoi, em Lisboa] faz cozinha de luxo com cozinha portuguesa. Eu achava que a cozinha portuguesa podia vir à mesa de toalha de linho e candelabros de prata.” Virgílio Nogueiro Gomes (Gastrónomo)

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Casa dos Morgados da Pedricosa: A nova sede da Federação em terras de Aveiro

Poucos são já os exemplares de casas nobres existentes em Aveiro. A arquitetura senhorial nunca atingiu, na zona litoral do país, uma importância elevada, quer pelo número, quer pela qualidade artística. É certo que existem bons exemplares, inclusivamente na Região de Aveiro, como são as casas dos Condes de Carvalhais e dos Marqueses da Graciosa. Tais exemplos são, contudo, exceções. Em Aveiro, grande número das casas nobres desapareceu, entre elas as mais importantes. Importa, pois, inventariar as existentes e investigar a história a elas ligada. Para iniciar este trabalho, escolhemos um edifício de alto valor para a história de Aveiro. Trata-se da casa dos Morgados da Pedricosa, existente na Rua de Santa Joana Princesa. É um pequeno paço, do primeiro terço do séc. XVIII, de fachada relativamente simples, mas de agradável aspeto estético, enquadrada por pilastras toscanas e cimalha da mesma ordem; no andar nobre, quatro sacadas de lintel, friso e cornija, bacias com dois cachorros, grades de varões anelados. Os vãos inferiores foram modificados sem que, contudo, o seu carácter fosse prejudicado. A meio da fachada o seguinte brasão esquartelado: o I e IV com as armas dos Eças; o II e III com quatro bandas. Como diferença pessoal, uma brica carregada de flor de lis. Elmo, paquife e timbre do primeiro. O II e III quartéis correspondem às armas dos Botelhos. O interior da casa encontra-se guarnecido com preciosos painéis de azulejo, oitocentistas, de temática histórica. A casa da Rua de Santa Joana Princesa pertenceu, segundo o genealogista Moura Coutinho, a um ramo dos Eças de Santa Comba Dão e, mais tarde, nos finais do Sec. XIX, início do Sec. XIX, a Carlos da Silva Mello Guimarães, depois à Sociedade Testa & Amadores e, seguidamente, a Amadeu Augusto Amador. Foi, entretanto, adquirida pela Câmara Municipal de Aveiro aos herdeiros deste último. Recentemente esta casa senhorial foi objeto de assinatura de Protocolo entre a Câmara de Aveiro e a Federação Portuguesa das Confrarias Gastronômicas para instalação no espaço da nova sede desta Federação. Esta casa senhorial oferecerá as melhores condições para o desenvolvimento de um trabalho mais direto e próximo das Confrarias, integrando valências diversas como espaço museológico, biblioteca, salas de trabalho e de eventos, e espaços administrativos qualificados.

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Vamos almoçar, Gastrónomos?

Os grelos rebolam empolgados de verde Na panela de ferro ancestral, ao lume, em tripé Que por ali, ao longe, anda sobre a maré Cheia de água a ferver, a borbulhar Foram apanhados pela manhã E estão frescos, quase a derreter Acompanhariam a Lampreia Se ela quisesse aqui aparecer Mas parece que não… As Tripas da moda daqui, do Porto Estão em sal e limão Iremos saboreá-las hoje? Sei lá se sim; sei lá se não E o Sangue misturado no vinagre Esperará ser cozido E escoado na carqueja Para levar um fio de azeite E lâminas de alho em perfil e sal grosso E ser degustado em deleite Na matança da Quintã? Ou todo na confusão, ao barulho Comido em Sarrabulho? Também pode ser de Galinha Ou de Coelho Servindo pra “cabidela” em arroz Olha! Está a cheirar ao Cozido de ossos da suã Que dá brilho à Papa de Milho O Atum chegou cá ao convívio Com a barriga fresca na grelha E o lombo fatiado, na faca afiada Qual “carne do mar” a dançar… A Sardinha ainda não está em tempo Mas deixa muitas saudades a nós todos E ao nosso Povo a quem só trás felicidades Tal como os Frutos do Mar Que se comem com um pouco de vaidades E a carne, carne, por onde anda? Já fumega! Barrosã, Mirandesa, Ribatejana, Açoreana, Madeirense, Arouquesa Ou de Lafões pra Duquesa Ou em Rojões pra dar cabo da beleza Mas quão velhos estão os nossos Poetas? Esqueceram-se: Do Leitão de maneiras muitas Dos Sabores sem fim à vista Das Sopas que ainda são “a tranca da barriga” Da espiga Nas farinhas em Pão, Broa, Migas ou Xerém Dos queijos diversificados em leites coalhados E dos Doces não só Conventuais, mas também Começando os roles pelos Ovos moles Ainda devemos trazer à Mesa O Cabrito saltitão O Borrego ensopado E o bom do Bacalhau Que sempre se esforçou Pra ser, mesmo, o mais amado                                     * Tudo à moda antiga Tudo em respeito pela nossa Gastronomia Pelas nossas Tradições Pela nossa Cultura Pelas nossas Confrarias! Luís Amante Confraria da Lampreia de Penacova

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Um olhar jovem!

O meu olhar jovem, mas desperto, levou-me a ter consciência da importância que o movimento confrádico tem na preservação e divulgação de produtos, receitas, tradições, territórios e história do nosso povo. Acredito no paralelismo saudável entre o passado e o futuro. É muito importante para as gerações futuras que não se deixe cair no esquecimento os costumes das nossas gentes. Nós, jovens, temos muito a aprender com as nossas gentes, são verdadeiros livros, plenos de sabedoria. Somos um país tão pequenino, mas tão grande! Grande nas suas gentes, grande nas suas tradições, grande na beleza dos seus territórios! Sinto que estou a honrar os meus antepassados. Enquanto jovem, quero fazer-me ouvir, quero puder divulgar toda a importância do trabalho árduo, da sabedoria de um povo que com pouco sempre fez muito. Toda a simplicidade das nossas gentes, das nossas avós, das nossas mães! Sem dúvida que são as mãos sábias destas mulheres e homens que colocam nas nossas mesas, muitas vezes, com um sacrifício enorme, mas sempre com muito amor e dedicação, os alimentos que nos nutrem. É à volta da mesa que se reúnem família e amigos! É à volta da mesa que se contam histórias, que se revivem tradições, costumes! O saber vai passando de geração em geração, envolto em laços de ternura! Na simplicidade da confeção dos alimentos, na riqueza dos sabores, outrora pratos de “pobres”, hoje são verdadeiras iguarias, apreciadas por nós jovens, pelos estrangeiros! Não passam despercebidas a ninguém, mesmo aos mais “desatentos”! Sempre que vou a um evento confrádico saio mais enriquecido! De afetos, de amizade, de saber histórico! Sinto que muito se tem feito a nível local para se mostrar o que de bom temos, mas acredito que muito ainda há para fazer. E é aqui que acredito que com a nossa jovialidade, com o nosso pensar “fora da caixa” que podemos dar um salto qualitativo na divulgação e também no registo de todas estas tradições, receituário, costumes. Desmitificar a imagem que por muitas vezes passa de sermos “um grupo de pessoas que se junta só para comer e beber”! Muito mais que desgostar as nossas iguarias queremos revelar e conservar as fontes de riqueza histórica que envolvem. Criam-se memórias, criam-se laços inquebráveis, fica-se com uma vontade enorme de fazer mais, de aprender mais! As conversas fluem, a alegria de um povo vem ao de cima, não tem idade! A vontade cresce solta de caminhar para um turismo responsável, ecológico, sadio, sustentável. A gastronomia tem rosto! São as pessoas que fazem os territórios! Pessoas que são moldadas pela natureza, pelo clima, pela água. Cozinhar é exclusivo das pessoas! Cozinhar é uma prova de amor pelos seus! Não há como ignorar este facto. João Veríssimo Coelho (Presidente da Direção da Real Confraria da Amêndoa de Portugal)

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A Madeira e a sua identidade gastronómica

Quero, em primeiro lugar, agradecer o amável convite que me foi dirigido e, em meu nome e da Região Autónoma da Madeira, saudar, na pessoa do Alcides Nóbrega – Presidente da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas e da Confraria Enogastronómica da Madeira, – todos os membros das confrarias que, de norte a sul do país, incluindo Regiões Autónomas, prestam, com o seu trabalho, um serviço inestimável, não só à sua comunidade e região, mas também ao país. É inquestionável o valor da gastronomia, enquanto elemento identitário de uma comunidade, de um povo, porquanto esta nos revela acerca dos seus recursos e da sua economia, dos seus saberes e modos de fazer ancestrais, da sua cultura e história. Julgo ser relevante sinalizar, não só a indissociabilidade, como também a importância do que se encontra a montante da nossa rica e diversificada gastronomia. Falo, naturalmente, dos nossos produtos agrícolas e frutícolas, da nossa pesca, pecuária e dos seus produtos derivados e, não menos importante, dos nossos vinhos. Não há promoção ou salvaguarda, dinamização ou divulgação do nosso património gastronómico sem a defesa da nossa produção e dos nossos recursos, com sentido prospetivo, ou seja, antecipando, aquelas que devem ser as respostas e as soluções para os desafios que hoje se colocam a cada comunidade e à nossa sociedade. Neste âmbito, a Madeira, não obstante o facto de produzir produtos de altíssima e reconhecida qualidade, apresenta, no que concerne à sua agricultura, características muito próprias e bem vincadas, que moldaram durante séculos uma produção quase sempre de subsistência. Falo-vos do nosso território, cuja orografia forçou o engenho e a força do homem a desenhar na paisagem pequenas parcelas de terreno em socalco armado em pedra de basalto. Hoje, felizmente, a atividade não se coaduna com uma prática de subsistência, pelo que, a atratividade do setor decorre em grande medida da capacidade de gerar rendimento. Neste contexto, estou certo de que a Região Autónoma da Madeira tem desenvolvido, nos últimos anos, de forma concertada, com resultados significativos e mensuráveis, políticas, no sentido de promover essa atratividade, em particular junto dos mais jovens. A Madeira e o Porto Santo vêm apresentando um número crescente de jovens empresários, com formação e conhecimento, que dotam as suas produções de meios tecnológicos e computacionais, assegurando, por essa via, o incremento da qualidade e quantidade produzidas, a diminuição de custos e, em última análise, a maximização do rendimento. Para tal, tem sido fulcral a formação assegurada pela Escola Agrícola da Madeira, o acompanhamento in loco dos técnicos da Direção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural, os apoios à modernização das explorações agrícolas, com recurso a fundos europeus, através do Programa de Desenvolvimento Rural da Região Autónoma da Madeira. Concorre igualmente o investimento em novos caminhos agrícolas, os planos estratégicos delineados para um conjunto significativo de produtos regionais e a sua diferenciação assente no produto “Marca Madeira”, assim como o crescimento de vários setores da indústria, que vem consolidando um percurso que nos aproxima da meta da autossuficiência. Em suma, o património gastronómico que nos foi legado, objeto da prestimosa atividade das confrarias, está e estará sempre dependente da visão e da ação num mundo em acelerada e profunda transformação. Miguel Albuquerque Presidente do Governo Regional da Madeira

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Hábitos alimentares mais sustentáveis

A gastronomia é uma das mais poderosas e vivificantes expressões de cultura. O que comemos, como comemos, onde comemos e com quem comemos dizem muito sobre a identidade cultural de um país, região ou cidade. Por isso, a afirmação do património identitário de uma comunidade depende, em boa medida, da capacidade de preservação e valorização dos seus hábitos alimentares e da sua tipicidade gastronómica. A maneira de ser, pensar e agir dos portuenses deve muito aos rituais e prazeres da mesa. O carácter muito próprio desta cidade foi historicamente construído sobre uma forte cultura gastronómica e enraizadas dietas alimentares. Basta pensar como as tripas são um fator identitário da cidade e dos portuenses, que ganharam o epíteto de “tripeiros”. Tudo isto para dizer que o papel das confrarias na preservação, promoção e valorização do património gastronómico português vai ao encontro da mundividência do Porto. Somos uma cidade de bem comer, que gosta de estar à mesa e tem orgulho na sua cozinha tradicional. Devo, pois, felicitar a Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas pelos nobres propósitos que prossegue, as relevantes iniciativas que desenvolve e o impacto sociocultural da sua atividade. Este é, aliás, um tempo de grandes desafios para a gastronomia. Muitos dos mais preocupantes problemas ambientais, em particular as alterações climáticas, se devem à alimentação. A pecuária é uma das grandes responsáveis pela emissão de gases com efeito de estufa, enquanto a agricultura intensiva acelera a desflorestação, a degradação dos solos e recursos hídricos, a perda da biodiversidade, entre outros impactos. Enquanto cidadãos de um país com uma enraizada cozinha tradicional somos, por isso, confrontados com um sério dilema: como salvaguardar a nossa gastronomia típica sem comprometer o esforço para salvar o planeta? Perante isto, as confrarias têm um contributo a dar na compatibilização da nossa gastronomia com a necessidade de tornar os hábitos alimentares mais sustentáveis. É esta a resposta que hoje, mais do que nunca, esperamos das confrarias gastronómicas. Rui Moreira Presidente da Câmara Municipal do Porto

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Confraria do Bucho e Tripas

A Confraria do Bucho e Tripas nasceu em 2018 numa aldeia do concelho de Abrantes, Pego. Uma terra em que as suas tradições, usos e costumes estão fortemente enraizados. Com uma gastronomia singular, o Bucho e Tripas é o prato-rei e a razão pela qual leva romarias às quartas-feiras à nossa aldeia na procura desta iguaria nas várias casas de petisco que aqui se encontram. Razões mais que suficientes para o surgimento da nossa Confraria. A preservação e divulgação do Bucho e Tripas é o nosso principal objetivo. Procuramos dar- lhe visibilidade, através das várias ações e presenças dentro do movimento confrádico e pelas oportunidades que a nossa Junta de Freguesia e Município nos proporcionam. Internamente, procuramos formas, meios e ferramentas que nos ajudem na valorização e preservação do nosso produto, o que em 2021 resultou numa das nossas grandes vitórias, a marca coletiva registada: “Bucho e Tripas do Pego”, no Instituto de Propriedade Industrial. Este registo deu uma grande importância ao Bucho e Tripas e, através dela, iniciámos um trabalho de parceria com as casas de petisco e restaurantes da aldeia do Pego, o qual que se encontra em execução. Como referi inicialmente, a nossa gastronomia é singular e por essa razão precisávamos de fazer mais e melhor. Assim, iniciámos trabalho na “Carta Gastronómica da Aldeia do Pego” que terá o seu lançamento no início do verão. Um projeto financiado pelo PDR2020, Medida 10.2.1.6- Renovação das Aldeias, de interesse para a CIMT- Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo e reconhecido pelo Turismo Centro de Portugal como importância turística, económica e social, no contexto turístico da região, contribuindo para a valorização do nosso território e de interesse para as populações, comunidade e economia local. Este é um projeto muito importante para nós, pois é o reconhecimento dos nossos antepassados como pioneiros de um legado de enorme importância e que nos possibilitou a construção de uma identidade ao longo dos tempos. É desta forma que demonstramos a essência, a vontade e aquilo que nos move dentro do movimento confrádico: Preservar e Divulgar. É aquilo que realmente mais importa, pois não há nada como desfrutar de um Capítulo onde possamos encontrar uma demonstração plena do produto, o respeito no ato da entronização e o valor da insígnia que se carrega. O bem receber é um dos grandes chavões que nos caracteriza enquanto povo português. O local e a forma como é realizado pouco importa, desde que estas características estejam sempre presentes, porque não nos podemos nunca esquecer que a maioria dos pratos, senão todos, que contemplam a gastronomia portuguesa são originariamente pobres, por isso, a humildade é sempre a melhor forma de os respeitar e àqueles que estiveram na sua origem. É desta forma que pretendemos enaltecer o Bucho e Tripas. Confecioná-lo de forma tradicional, como foi sendo transmitido de geração em geração ao longo das décadas, sem discordar da inovação. Respeitar o ato sério da entronização, assim como nos foi ensinado pela nossa Confraria-madrinha. Receber de forma honrosa quem nos visita, à boa maneira pegacha. Também o “feito à mão” impera na nossa Confraria, pois de forma orgulhosa confecionamos os pratos, fazemos a decoração e damos atenção a cada pormenor, em cada evento que nos prometemos a elevar o nosso prato. A azáfama destes dias, no final, torna-se muito gratificante. Exmo. Confrade Alcides Nóbrega, é tudo isto que me move. A decisão de aos 28 anos ter tomado posse numa entidade que promove um património imenso, foi feita com a consciência da exigência de tamanha responsabilidade. A Confraria do Bucho e Tripas ainda tem um longo caminho a percorrer e muito temos a aprender. Mas, juntos, neste importante mundo que é o movimento confrádico, tenho a certeza de que todas nós, Confrarias Gastronómicas, faremos o melhor pela valorização da gastronomia em Portugal. Daniela Canha (Grão-mestre)

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Algarve: uma viagem de sabores

É sabido que a gastronomia é uma das maiores riquezas do nosso país, que levam qualquer um numa viagem pelos sabores e tradições das nossas terras. Este é também um elemento-chave de um destino turístico, quer pela experiência que permite ao visitante, quer pelo conhecimento que este adquire sobre o local que visita ou até mesmo pela forma como valoriza a cultura, as tradições e os produtores da região. No que ao Algarve diz respeito, a diversidade e a qualidade são duas faces da mesma moeda, sendo que uma não existe sem a outra, tanto nos nossos pratos de peixe e marisco, como na doçaria, que tem por base produtos regionais, ou até mesmo nos nossos vinhos e no afamado medronho, um dos ícones da nossa região. Baseada nos princípios da Dieta Mediterrânica, a gastronomia algarvia é enriquecida com o melhor da nossa costa e Ria Formosa. Dela fazem também parte os grelhados, os arrozes, os xaréns e as cataplanas. Na doçaria, as alfarrobas, as amêndoas e os figos são quem reina. São produtos da região que fazem as delícias dos apreciadores de doces, através das incríveis tortas e tartes, dom-rodrigos, bolinhos de amêndoa ou morgados. O difícil é escolher, mesmo para os clientes mais exigentes. Também os produtos com certificação tradicionalmente portugueses são determinantes na gastronomia regional. Aljezur dá-nos a batata-doce, muito saborosa, a Serra de Monchique dá-nos o mel e Tavira premeia-nos com a Flor de Sal. A par destes, os citrinos e o medronho complementam qualquer mesa algarvia. Um dos projetos que também tem impulsionado a promoção da gastronomia algarvia é o  projeto Algarve Craft & Food. Dedicado à promoção e internacionalização das indústrias culturais e criativas baseadas no artesanato e nos produtos alimentares locais do Algarve, este ano podemos contar com 10 novos programas que irão ser, certamente, mais uma referência da região. É claro que, não podemos nunca esquecer que a marca da gastronomia do Algarve passa pela arte de tão bem servir os produtos e tradições da região, frescos e de qualidade ímpar. Uma qualidade que é reconhecida em Portugal e no resto do mundo, pela riquíssima oferta de restaurantes que dispomos e pelas oito estrelas Michelin, até ao momento, presentes na região. Sendo o Algarve um destino sem igual, para ser vivido e saboreado, a gastronomia é um dos ativos mais importantes para a região. Através dela conseguimos a valorização e a capacitação de elementos algarvios e o envolvimento da comunidade local na promoção turística, o que dá a quem nos visita uma experiência completa. É a “cereja no topo do bolo” que completa toda a experiência, que fica na memória e no paladar de quem conhece, e garante que quem prova, quer voltar. João Fernandes Presidente Turismo do Algarve

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